Contos de Terreiro – Nem tudo queima

Contos de Terreiro – Nem tudo queima

A noite estava perfeita para a gira da esquerda, onde os Exus e Pombagiras iriam se manifestar.

Como era de costume naquele terreiro, essas sessões eram fechadas, apenas para os trabalhadores e convidados.

Os preparativos estão todos prontos.

A toalha vermelha está estendida diante do Congá, as flores estão colocadas

em seus devidos lugares, os charutos, cigarrilhas, perfumes e o padê – farinha com dendê – estão disponíveis para as entidades que viriam a se manifestar.

Há uma prece inicial, evocando as forças do Criador e das divindades que lhe auxiliam, seguido de cânticos saudando os Exus e Pombagiras.

“Seu Tranca-Ruas me cobre com sua capa,

A sua Capa é um manto de caridade,

sua capa cobre tudo, só não cobre a falsidade.”

Enquanto todos se harmonizam em um só coro, os atabaques continuam a retumbar. A dirigente do terreiro pede então para que todos comecem a assobiar, enquanto a curimba continua a chamar o “povo da tronqueira”.

“De vermelho e preto vestindo,

a noite um mistério traz.

De colar de conchas,

De brincos dourados

a promessa faz.”

Então começa-se a ouvir gostosas gargalhadas, graves e agudas, os médiuns se curvando e suas mãos tomando a forma de garras. As médiuns, com um sorriso faceiro no rosto se poem a dançar. Todos se cumprimentam e se poem a trabalhar:

“Boa noite para quem é de boa noite!”

Um dos Exus a se manifestar, chama um cambone, pega seu charuto de uma marca cubana, olha pra ele e diz:

– Mas esse burro não entende nada de fumaça mesmo! Onde tá o cortador de charuto?

O cambone procura em tudo, mas o Exu impaciente diz:

– Deixe, ele não tem. Não sabia sequer que precisava de um pra cortar esse charuto! Deixe comigo!

Então morde uma das extremidades do charuto, tirando um naco de folhas secas de tabaco, criando assim seu próprio corte. Tão preciso quanto feito com um cortador.

O cambone se aproxima com três nomes escritos em papel, cada um em um pedaço separado. Entrega nas mãos do exu e lhe informa:

– Pai, salve suas forças! Esses nomes foram pedidos para serem entregues pro senhor. Disseram que estão cheio de macumba e com a vida empacada. Que fizeram demandas contra eles.

O Exu, olha de canto de olho, com uma cara de poucos amigos e pega um pequeno recipiente feito de latão. Pede o fumo picado, que se usa pra charuto. Enche a vasilha de latão com fumo, pega um pouco de álcool misturado com arruda, guiné e alecrim e despeja por sobre o fumo. Então um a um ele vai pegando os nomes e olhando. Enrola os mesmos como pavios e o enfia dentro do fumo com uma parte para fora. Quando pega o terceiro nome diz:

– Esse aqui disse que tem demanda contra ele? Tem não! Mas vou colocar aqui de qualquer jeito e tu vai ver com os olhos que tem que nada tem contra ele! – Disse ao cambone.

Enrola como os demais e coloca no meio do fumo. Embebedando os papéis um pouco mais com o preparo de álcool e ervas.

Então taca fogo e acende uma bela pira!

O exu pega no ombro do consulente e vai correr a gira dele. Passa por alguns cumprimentando, a outros ignorando, mas a todos dando seu axé do seu jeito.

Passado um tempo ele pede para o cambone ir até o fogo que já havia se extinguido. O Cambone olha atônito e percebe que um dos papéis – apesar de estar junto, embebido de álcool e ter sido beijado pelo fogo – estava intacto. O exu olha com um sorriso no canto do lábio e diz:

– Abra e leia o nome!

Então o cambone ao abrir se choca mais ainda, pois era o nome exato da pessoa que nada tinha contra ela, que o mesmo – exu – havia dito.

– Quando não há, não há! E a prova tá aí pra quem quiser ver. Isso é magia, isso é Quimbanda, isso é Umbanda! – diz o Exu, finalizando com uma gargalhada que pode ser ouvida até hoje ao fechar os olhos e relembrar a cena.

Laroyê Exu! Exu Omodjubá!

“Deu meia noite em ponto e o galo já cantou

Deu meia noite em ponto e o galo já cantou

Cantou pra anunciar que seu Tiriri Chegou,

Cantou pra anunciar que seu Tiriri Chegou.”

Guias e Fios de Conta na Umbanda.

por Douglas Rainho

Um dos elementos ritualísticos mais comuns dentro dos terreiros de Umbanda e sem dúvida nenhuma, dos mais icônicos,

são as guias ou fios-de-conta. Podemos ver os médiuns se utilizando deles,

em diversos números, assim como os guias que os manipulam de diferentes maneiras.

Muito longe de ser apenas um adorno, as guias possuem fundamentos muito

importantes tanto para a segurança do médium, quanto para o trabalho do guia em questão.

As guias foram introduzidas logo no início da Umbanda, pelo Pai Antônio – Primeiro Preto-Velho que se manifestou pela mediunidade de Zélio Fernandino de Morais – e a ela era dada o nome de Cordão de São Benedito. Provavelmente Pai Antônio trouxe esse fundamento dos cultos africanos, mas isso acaba tendo uma referência ainda anterior, já na magia européia, na magia talismânica e mesmo dentro dos diversos cultos indígenas. Sempre foi atribuído a certas jóias e adornos, poderes mágicos, litúrgicos e cerimoniais. Alguns reis da antiguidade, nem sequer usavam coroas, mas sim um grande cordão cheio de pedras preciosas e metais preciosos, como representação de força, poder e autoridade. Mesmo dentro da cultura sertaneja e até mesmo da cultura bárbara, era comum muitos utilizarem colares feitos de ossos, para afastar o mau-olhado, a inveja, a maldade e as pragas. O povo Malê, usava também algo parecido, chamado de Patuá, que consistia de um saquinho feito de couro, onde dentro constavam pequenos trechos do Alcorão e eles colocavam esse envolta do pescoço, preso por um fio ou cordão.

Dentro da Umbanda o processo é bem similar, os fios-de-conta ou guias, servem para trazer estabilidade mediúnica e energética e também atuam na proteção do médium e do consulente. Costumeiramente a primeira guia que um médium deve fazer, mesmo quando ele ainda está em desenvolvimento, não está dando consulta ou é ainda Cambone (sem manifestação mediúnica) é a guia de Oxalá. É uma guia simbólica que representa o compromisso assumido perante a Espiritualidade em trabalhar nas linhas de Umbanda. É a única guia do médium de fato, todas as demais são das entidades e servem para o trabalho.

As entidades vão pedir suas guias quando sentirem necessidade e quando perceberem que o médium está pronto. Pode ser que algumas entidades nem sequer usem guias, o que não é de forma alguma depreciativo ou indica menos ou mais poder de uma entidade. Meu caboclo por exemplo, não usa guias, geralmente quando se manifesta a primeira coisa que ele faz é retirar minha guia e minha braçadeira de coroação.

Nem sequer o pano-de-ombro (ou estola) ele usa no pescoço, apenas deixando a guia de Oxalá, explicando já por diversas vezes que é uma guia minha, para minha segurança, mas que se eu me sentir a vontade, ele pode trabalhar sem também. De fato, ainda não me senti a vontade e ele respeita. Vejo esse tipo de atitude em outros caboclos também.

Muitas pessoas pensam que as guias são de certa forma patentes adquiridas e que os médiuns com mais guias são os mais poderosos, antigos ou de mais apreço dentro do terreiro. Isso não é verídico, pois o guia precisa apenas da SUA guia para trabalhar, seria inútil manter diversas guias, com fundamentos passados por outras entidades no pescoço, só para exibição. A Umbanda também requer bom-senso.

A guia pode ser feita de diversos elementos, geralmente o cordão que segura as contas é feito de nylon (fio de pesca), pela sua durabilidade e resistência, porém concordamos que o mesmo é um elemento plástico e não tem qualquer tipo de Mojo ou Axé, ou seja, não tem energia própria. Mas nesse caso, servirá apenas como um meio de retenção das miçangas e elementos que comporão a guia, esses sim, devem ser feitos de materiais naturais, como ossos, dentes, argila, porcelana, cristais, pedras, sementes, madeira, etc. As cores também podem variar e a quantidade de contas idem, geralmente se pedem múltiplos de sete e uma conta maior no final que se chama FIRMA, porém podemos encontrar guias menores, que se assemelham a rosários ou terços e guias maiores chamadas de Brajas. Isso é muito pessoal da entidade, mas brajas geralmente são as guias que se usam cruzadas no corpo, em diagonal, e são maiores, podendo contar com um só fio de contas, com três, cinco ou sete fios enrolados, enlaçados ou amarrados. Usualmente quem usa braja é alguém que teve algum tipo de iniciação diferenciada, porém na Casa em que trabalho isso não existe, apenas o fio-de-conta cruzado (feito com uma só linha) nas cores azul, vermelho e branco para Ogum Beira-Mar, o protetor da nossa Casa e é usado por quem queira usar, não por todos. Na Umbanda o menos é mais! Como diz o baiano Severino: “A verdade reside na simplicidade”.

Voltando a relatar o que meu caboclo usa, certa vez ele me mostrou uma guia de mão (um pequeno terço) que ele queria que eu fizesse para um propósito específico. Foi me instruído para conseguir um fio natural (de palha da costa, trançado e encerado), sementes de açaí na cor natural e sementes de sibipiruna, que são vermelhas. Além disso ele queria três penas, que poderiam ser pintadas nas cores: Vermelho, Branco e Verde. Pediu para eu confeccionar a mesma e usou em alguns casos, para alguns filhos, logo depois dando de presente para um consulente a mesma. Ou seja, a guia era dele, ele fazia o que queria e ele quis presentear. Nunca mais pediu outra guia para nada, inclusive ganhou algumas de presente de consulentes e as deu, como faz com todos os presentes que ganha.

Existem elementos que são clássicos e tradicionais nas guias de certas linhas. Caboclos geralmente pedem penas, dentes e algumas sementes; Pretos-Velho pedem Lágrimas de Nossa Senhora, cruzes, búzios e café; Baianos acabam pedindo coquinhos, olho-de-cabra (semente) e olho-de-boi (semente), Exus pedem tridentes, etc.

Eles utilizam a guia tanto como um catalizador de forças, ou seja, para de certa forma mudar a reação da energia que ali está sendo manipulada. Usam também como um para-raios ou condensador de energias, para puxar energias negativas ou mal-intencionadas que estejam sendo dirigidas para os médiuns, entidades e consulentes e também como ferramentas de trabalho ou ponto focal para a oração. Como exemplo temos o rosário dos pretos-velhos, que geralmente são usados nas benzeduras. Ainda assim pode ser utilizado para retirar cargas negativas de forma mais ativa e forçada, esfregando o mesmo no corpo do médium ou consulente e inclusive abrindo a guia em círculo com o consulente dentro para fazer algum tipo de imantação ou descarrego. Mas aí entramos nas particularidades de atuação de cada guia, sendo impossível explicar em um texto.

Porém, ainda existe uma outra categoria de guia que é diferente e que não tem uma função litúrgica ou mágica abrangente, sendo uma firmeza bem específica, que são as guias de proteção. Geralmente essas guias são presenteadas aos consulentes, são menores, mais finas e se utiliza por debaixo da roupa, no dia-a-dia. Sua função específica é a proteção do seu portador, ela carrega o Mojo ou Axé da Entidade e estará lá atuando como um campo de forças. Essas guias devem ser usadas sempre de forma não visível, por debaixo da roupa, pois não é necessário ninguém ver para ela funcionar. Alguns cuidados devem ser tomados com o seu uso e manuseio, principalmente em questão a limpeza. Se você é frequentador de um terreiro de forma assídua, é recomendado de tempos em tempos (3 meses) pedir para o guia que lhe deu o fio-de-conta (ou um outro, na falta deste) para que descarregue a mesma e cruze-a novamente. Na impossibilidade de ir ao terreiro, podemos fazê-lo em casa, com um pouco de fé.
Como limpar sua guia em casa.

Itens necessários:

Água Mineral ou de Fonte
Copo de Vidro
Recipiente para colocar a guia, de preferência de vidro, barro, metal ou porcelana.
Vela Branca
Arruda, Guiné e Alecrim
(opcional) Perfume de Alfazema ou Álcool.

Modo de fazer:

Acenda a vela branca e coloque um copo de água ao lado do recipiente, pegue o restante da água e coloque dentro do recipiente, acrescente as ervas e macere-as, para que soltem seus sumos. Coloque sua guia dentro, faça uma imposição de mão e peça:

“Deus Pai Todo Poderoso, clamo a ti e aos sagrados pais e mães Orixás, para que desimpregnem (ou limpem) essa guia de suas energias nocivas e restabeleça suas energias para que ela continue me protegendo. Amém”. Reza 1 Pai-Nosso e 1 Ave-Maria. Faz o sinal da cruz em cima da guia por três vezes e deixe descansar por 12 horas no mínimo, no máximo 24 horas.

Opcionalmente antes de fazer isso pode-se limpar a guia com o Álcool ou o Perfume de Alfazema.

Outros cuidados devem ser tomados com as guias no que diz respeito ao seu uso em certas situações. Você pode usá-la para comer, beber, dormir, ir ao banheiro, tomar banho, etc. Sem problema algum, pois ela estará exercendo o papel de te ajudar, te proteger e te irradiar. Porém, há um quesito em que não se deve usar as guias, isso por tradição, que é ato sexual. Durante a relação sexual, não é recomendado a sua utilização, por causa da troca energética que está sendo feita. Essa questão tem que ser desdobrada em um artigo à parte, mas a princípio digamos que a energia pode ser mal-dirigida.

Inclusive, é legal ver que tal fato é retratado até no cinema nacional no filme CIDADE DE DEUS, onde o Zé Pequeno, ganha uma guia de um Kimbandeiro, presente de um Exu, garantindo que seu corpo estaria fechado enquanto ele a usasse, porém ele não poderia usá-la quando fizesse sexo. Olha que curioso, ele podia vender drogas, podia matar, podia fazer atrocidades com a guias, mas não enquanto fazia sexo. O que ocorre é que, coincidência ou não, o mesmo tem o corpo protegido de tudo e prospera, até um dia em que perde a cabeça e esquece que está com a guia e acaba violentando uma moça. A partir daí começa a sua derrocada até sua morte. É uma curiosidade, mas vale a pena como ilustração desse caso.

Há outras situações que às vezes as entidades recomendam retirar a guia, por exemplo enquanto se dorme, pelo motivo óbvio que você pode se enforcar e também quando se está dentro de casa – para mim não faz tanto sentido, mas algumas entidades pedem – pois teoricamente sua casa é um local em que você já está protegido. No final é bom tirar todas as dúvidas com a entidade-espiritual e seguir suas recomendações, já que o Mojo ou Axé colocado ali é dela e é ela quem diz como devem ser os preceitos.

Então, a guia é uma ferramenta de trabalho dos médiuns e um objeto para a proteção dos consulentes. Não é um instrumento de hierarquia, apesar de poder existir alguns fios-de-conta de confirmação, coroação e etc, mas não é a regra, são mais litúrgicos do que mágicos.

Ademais, devem ser usadas com respeito e principalmente com muita fé

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